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domingo, 11 de janeiro de 2009

UM PERFIL DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

UM PERFIL DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Em um ranking elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para monitorar o cumprimento de metas pelos países para melhorar a educação, o Brasil ocupa a 80ª posição em uma lista de 129 países estudados. Fica atrás de países latino-americanos como o Paraguai, a Venezuela e Argentina, além do Kwait, Azerbaijão, Panamá e outros. E ainda assim, segundo pesquisas realizadas pela revista VEJA no ano passado, a maioria dos pais e educandos de escolas públicas apresentam alto índice de satisfação com a educação num todo – estrutura, atendimento, qualificação profissional.
Vemos também, nos exames de qualidade realizados pelo MEC, anualmente, como a Prova Brasil, que a maioria dos estudantes não atinge 50% de acertos nestas avaliações, que nada são além de provas que buscam a interpretação, tais como as do ENEM. Então, se esses resultados são insatisfatórios, julgamos que o aluno não aprendeu; agora é impossível – sem uma justificativa plausível (como por exemplo, o indivíduo ser portador de alguma necessidade especial) – o aluno passar o ano inteiro sem pelo menos levar algo da escola para a vida toda, sem ao menos um conceito, ou uma prática: leitura.
Tal teste mostra uma realidade cruel, nossas crianças saem da escola sem saber ler ou escrever. Interpretar então é coisa de outro mundo. Mas, se acontece que eles sabem ler o mundo, interpretar desenhos, charges e filmes; como não podem decifrar a língua escrita? Falta prática, que se adquire com o exemplo, dos pais, dos professores, das pessoas próximas à criança, adolescente; que mostre o quanto é saudável e divertido praticar algo diferente daquilo que estão acostumados: ouvir música sem conteúdo, navegar na internet sem rumo, direção...
Mas, isso se torna uma FALHA onde? Em casa, na escola, no sistema educacional...
Qual segmento social é responsável pelo ‘rombo’ na educação? É a escola que prepara todos os profissionais das mais diversas áreas, então o que a torna tão obsoleta?
Talvez – cabe aqui deixar bem claro que essa opinião é minha – a falha seja global, melhor dizendo nacional. Vejamos alguns aspectos que podem embasar tal teoria:
1 – O modelo europeu: adoramos importar modelos europeus para tentarmos aplicar em sala de aula; sempre nos esquecendo que o modelo europeu está historicamente e geograficamente mais velho que o nosso, além de fazer parte do primeiro mundo; muito além do nosso! Lá as escolas oferecem alimentações fartas e as crianças não passam 4 horas em salas de aula pequenas e sentadas tendo que ouvir o que lhes é transmitido; lá as crianças vivenciam!
2 – O sistema educacional: certa vez fui a uma palestra onde o palestrante citou a seguinte situação: “o professor entra na sala, após sair de outra, carregando materiais que quase cai pelos lados, senta e começa a chamada – lembrando que a aula é de 50 minutos – quando está lá no número 10, o número 5 se levanta e diz que não respondeu... A sala que já estava uma algazarra, fica ainda pior; enfim quando o professor consegue terminar a chamada, fica mais uns 10 minutos pedindo silêncio, finalmente consegue a atenção de todos para poder dar continuidade ao discurso da aula anterior, mais 10 minutos, bate o sinal, acabou o que ele ainda nem havia começado...” Seria cômico se não fosse trágico, essa pequena ilustração é verdadeira, isso realmente acontece nas salas de aula! Para que esse quadro realmente mude, é necessária uma reformulação no sistema educacional brasileiro!
3 – A morosidade em termos de legislação: bem o próprio subtítulo já diz tudo! Demora-se montar, votar, anexar na legislação...
4 – A desvalorização do profissional da educação: todos os profissionais que compõem a sociedade passam pelas salas de aula de uma escola, mas, nem todos depois disso valorizam aqueles que foram seus mestres. Nem mesmo, o governo, pois na hora de estabelecer um piso salarial mínimo para a classe educacional, ficam indecisos! Gostaria de convidá-los a fazer um planejamento e enfrentar uma sala de aula com mais de 25 alunos; será que conseguiriam sair de seus gabinetes?
5 – A transferência dos papéis familiares: a escola assume muitas vezes um papel que não é dela, é mãe, pais, enfermeira, psicóloga, dentista, enfim, agrega funções que deveriam estar em casa, na base, a família é o primeiro grupo social e, conseqüentemente, a primeira instituição que a criança conhece.
6 – Recursos precários: quantas escolas públicas têm acesso aos STE’s (salas de tecnologias educacionais), quantas escolas dispõem de materiais diversos para aulas instigantes, quantas escolas têm profissionais gabaritados para dar assistência ao professor para manusear esse material, quando disponível?
7 – A falta de feeling: acredito que para exercer a profissão de educador, o indivíduo necessite apresentar alguns aspectos básicos, como GOSTAR daquilo que faz fazer com paixão, com prazer... Já viu neurologista não admirar os segredos do cérebro? Já viu piloto não ficar encantado ao ver um avião? Bem, eu vejo sempre, professor – seja da disciplina que for – não gostar de elaborar prova, de corrigir, ‘ter urticárias’ em ler uma produção de texto... E, isso, comentário meu: ver isso, é deprimente!!!!
Para se enfrentar uma sala de aula, o educador deve fazer o que Saint-Exupéry sugeriu em seu livro: CATIVAR.
(Trecho de "O Pequeno Príncipe" - de Saint-Exupéry)
Bom dia, disse ele.
—Bom dia, disseram as rosas.— Quem sois? Perguntou o príncipe.— Somos rosa.
— Ah! Exclamou o principezinho...
E ele sentiu-se extremamente infeliz. Sua flor lhe havia contado que ela era a única de sua espécie em todo o universo.
E eis que havia cinco mil, igualzinha, num só jardim!
Depois refletiu ainda:
"Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo...
Isso não faz de mim um príncipe muito grande...
E, deitado na relva ele chorou.
Foi então que apareceu a raposa:
—Bom dia, disse a raposa.— Bom dia, respondeu polidamente o principezinho.— Quem és tu? Tu és bem bonita...— Sou uma raposa, disse a raposa.— Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste.
— Eu não posso brincar contigo, disse ela. Não me cativaram ainda
—Que quer dizer "cativar”?— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."— Criar laços?
—Tu és ainda para mim um garoto igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim ÚNICO no mundo. E eu serei para ti única no mundo...E a raposa continuou:— Minha vida é monótona. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O tu me chamará para fora da toca, como se fosse música.
E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
— Por favor... cativa-me! - disse a raposa.
— Bem quisera, disse o Principezinho. Mas tenho pouco tempo e amigos a descobrir e coisas a conhecer.
— A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, eles não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me !
— Que é preciso fazer?
— É preciso ser paciente. Sentarás primeiro longe. Eu te olharei e tu não dirás nada. A linguagem é fonte de mal-entendidos. Mas cada dia sentará mais perto... E virás sempre na mesma hora. Se tu vens às 4, desde às 3 eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às 4 horas, então, eu estarei inquieta e agitada:
Descobrirei o preço da felicidade.Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de
preparar o coração...
Assim, o principezinho cativou a raposa.
Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
— Ah! Eu vou chorar.
— A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não queria te fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
— Quis.
— Mas tu vais chorar !
— Vou.
—Então não sais lucrando nada!
—Eu lucro, por causa da cor do trigo.
—Vais rever as rosas e volta. Tu compreenderás que a tua é ÚNICA no mundo.
E ele disse às rosas:
— Vós não sois iguais à minha rosa, vós não sois nada.
— Ninguém vos cativou e nem cativastes ninguém.
—Sois como era a minha raposa, mas eu fiz dela um amigo.
—Agora ela é ÚNICA no mundo.
—Sois belas, mas vazias... A minha rosa sozinha é mais importante que vós todas.
—Foi dela que eu cuidei, ela é a minha rosa!
—Adeus, disse ele.
— Adeus, disse a raposa.
—Eis o meu segredo: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Foi o
tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante.
Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
TU ÉS RESPONSÁVEL PELA ROSA...
— Sou responsável pela minha rosa... Repetiu ele a fim de se lembrar...
“ Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

Concluindo, fiz aqui apenas alguns registros de observações que ao longo de meus 12 anos de educadora vivencio todos os dias, reflexões que nos permitem ‘rever alguns conceitos’; também sei que muitos destes permanecerão inalterados, pois não é desejo de todos que a educação se fortaleça, mesmo sabendo que países antigamente considerados fracos, hoje ameaçam o poder, através de altos investimentos educacionais. Vejo a educação, com olhos utópicos de quem ainda acredita no bem, na fé e na boa vontade dos seres humanos, pois ainda temos pessoas que se oferecem para ser amigos das escolas públicas, temos pessoas que disponibilizam um tempo para mostrar que o mundo é regido pelo fator tempo, sim, no entanto, isso também não permite que nós nos tornemos menos SERES HUMANOS. Como na célebre frase de um grande ator e diretor inglês, Charles Chaplin: “Não sois máquinas, homens é que sois!”
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Sandra Regiane Rodrigues Pereira
Pedagoga, psicopedagoga, professora do Ensino fundamental I, professora do Ensino Médio com as disciplinas de Filosofia e Sociologia, Coordenadora Pedagógica, mãe de três filhos.
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Rodrigo Costa de Oliveira, Acâdemico do Curso de Ciências jurídicas da
Universidade do Grande Rio.

3 comentários:

  1. Muito bom!
    Perfeito este trabalho!
    Iniciativas assim que estão em falta na nossa sociedade!
    Com certeza se mais pessoas tomassem a mesma iniciativa viveríamos em uma sociedade mais justa e mais esclarecida.
    Parabéns!

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  2. De fato, tem tudo a ver com o quadro educacional que vivemos hoje. Todos nós, educadores ou não, deveríamos analisar e colaborar para atingirmos qualidade em educação, pública e privada!

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  3. Realmente, se o profissional em questão não se interessa pelo seu trabalho, não há como tal ser bem realizado. Qualquer profissão tem que ser desempenhada com um mínimo que seja, de vontade, de desejo. Ainda mais se tratando de ensino, nenhum aluno aprende se o professor não souber, ou não sentir prazer em ensinar. Deve haver motivação.

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